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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Crítica - Séries: Perry Mason - 1ª Temporada



Noir ensolarado e melancólico


por Alexandre César

Fiel ao espírito mas não à representação

Raymond Burr na encarnação consagrada
do personagem entre 1957 a 1966...

Surgido nas páginas dos quase 80 livros de Erle Stanley Gardner (1889 - 1970) sendo muitos deles publicados postumamente, o advogado criminal Perry Mason (lançado no livro O Caso das Garras de Veludo de 1933) caracteriza-se por ser sempre dedicado a seus clientes (ele só aceita defender indivíduos que ele saiba que são realmente inocentes) independente de suas origens e classe social, sabe-se pouco sobre a sua origem, família, idade e aparência, pois o autor deliberadamente sempre descreveu muito mais o espírito e atitude do personagem do que o seu aspecto exterior, dando-lhe um aspecto mítico, que facilita por uma lado a sua adaptação (mas que nunca explorou a sua personalidade verdadeiramente) tendo sido imortalizado na série veiculada entre 1957 e 1966 com Raymond Burr pela rede CBS, que foi a precursora do gênero “procedural”(aquele cuja narrativa de cada episódio se foca num caso que é investigado a cada semana, não tendo nenhuma conexão entre demais) além de aparecer em programas de rádio, filmes para o cinema e TV e até quadrinhos e jogos, sem contar de ter se tornado uma referência nos meios jurídicos*1.

Em preto e branco,Warren William,Raymond Burr e 
Monte Markham, encarnações anteriores do personagem, 
agora interpretado por Matthew Rhys (em cores) num aproach mais humano e falho...

Criado por Rolin Jones (Boardwalk Empire) Ron Fitzgerald (Weeds) para a HBO tendo entre os produtores Robert Downey Jr. (Doolittle) e sua esposa Susan Downey (Beijos e Tiros) e dirigido por Tim Van Patten (O Pacífico) e Deniz Gamze Ergüven (O Conto da Aia) Perry Mason traz de volta, repaginado, o futuro advogado, dando-nos a oportunidade de acompanhar a sua origem, como um detetive (destoando da imagem glamourosa de detetive noir) bem distante do advogado a que o grande público está acostumado.

O "saber olhar": Mason vai procurando na investigação 
as conecções dos fatos, sejam elas visíveis ou não...

Ambientado na Los Angeles de 1932, aqui no auge da Grande Depressão, Mason (Matthew Rhys de Um Lindo Dia na Vizinhança) é o último de sua família, agarrando-se como pode para manter a propriedade que outrora produzia leite, assombrado pelos fantasmas e suas experiências de stress pós-traumático na Primeira Guerra Mundial, e traumatizado pelo fim de seu casamento, vivendo subempregado e fazendo com seu amigo Pete Strickland ( Shea Whingham de Marvel´s Agent Carter) biscates de dar flagrantes em celebridades (e muitas vezes levando surras neste processo) sendo considerado um vagabundo maltrapilho pelos policiais, enquanto dribla (entre bebedeiras e sexo) as investidas de sua amante Lupe Gibbs (Veronica Falcón de A Rainha do Sul) que quer comprar a sua propriedade. Mason trabalha para o advogado idoso E. B. Jonathan (John Lithgow de Planeta dos Macacos: A Origem numa performance comovente) que já viu dias melhores em sua carreira, estando em declínio, e contando basicamente com Mason e Della Street (Juliet Rylance de McMafia) sua secretária e braço-direito para ainda se manter no ramo.

E. B. Jonathan (John Lithgow) e Della Street (Juliet Rylance) 
são os empregadores de Mason na investigação...
Irmã Alice McKeegan (Tatiana Maslany): Quase uma "Femme Fatale de Deus"...

Jonathan é contratado para defender o casal Matthew (Nate Corddry de O Círculo) e Emily Rankin (GLOW!) acusados de forjar o sequestro que resultou na morte de seu bebê, sendo eles devotos da Radiante Assembléia de Deus, igreja liderada pela Irmã Alice McKeegan (Tatiana Maslany de Orphan Black) que é submetida a uma rotina sufocante de cultos e louvores por parte dos diáconos (afinal são só negócios...) e demais membros da cúpula da igreja, levando-a ao esgotamento nervoso, ao encarar os seus fantasmas do passado, alguns deles remetendo à abusos na infância.

O investigador Paul Drake (Chris Chalk) diferente dos livros é afrodescendente, já Emily Dodson (Gayle Rankin) e o parceiro de Mason Pete Strickland (Shea Whingham) foram criados diretamente para a série...
As descrições vagas dos romances de Erle Stanley Gardner 
serviram para a composição de ambientes, como o futuro 
escritório de Mason e Street, com riqueza de detalhes, situando a época...

Ao longo de seus oito episódios de uma hora, a um um custo de produção de 74,3 milhões de dólares, a série bem em sintonia com os tempos atuais, repagina igualmente personagens conhecidos dos livros, mudando etnia e sexualidade*3, mostrando o quanto a realidade daqueles anos é mais similar à atual do que pensamos, deixando evidente o racismo, a homofobia, a corrupção disfarçada de moralismo direitista, quando as engrenagens do sistema esmagam os desassistidos de acordo com a sua conveniência, como o promotor Maynard Barnes (Stephen Root de O Homem do Castelo Alto) que para alavancar sua reeleição decide acusar Emily da responsabilidade do sequestro, forçando interrogatórios ilegais e outros estratagemas, como coagir o policial Paul Drake (Chris Chalk de Olhos que Condenam) a mudar o seu relatório de uma cena de crime.

Emily Dodson é amparada pela Irmã Alice McKeegan,
 e por Birdy McKeegan (Lili Taylor) a "mãe" da evangelista...
As cenas da greja mostram o poder da palavra da Irmã 
Alice McKeegan, que fervorosa, começa a acreditar nas próprias "profecias"...


Mason, sempre com seu chapéu fedora e um cigarro na boca além de sua pequena máquina fotográfica, vai a despeito de seus modos e visual encardido, vai usando o seu faro para cavar a verdade, enquanto troca a sua gravata manchada de mostarda por outra de um defunto do necrotério (“- ele não vai pecisar mesmo...”) ou levando uma surra de algum desafeto, e além de expor as falcatruas de Barnes, vai sacando as jogadas do clero da igreja de McKeegan, que além de explorá-la planejam descartá-la por conveniências financeiras, e em suas ações muito pouco ortodoxas é que (em meio aos seu desmazelo) vai aflorando a sua força moral nos permitindo sentir o defensor que futuramente irá se tornar.

A acusação do Promotor Maynard Barnes (Stephen Root) 
contra Emily Dodson é totalmente circunstancial e moralista...
O julgamento é uma verdaeira arena onde a manipulação 
do poder luta pela narrativa da história...

Na metade da temporada uma tragédia pessoal, aliada à capacidade de Della de pensar rápido, mais a sua rede de conhecimentos e sua compreensão de que fazer o certo (e não exatamente o que a lei manda) é realmente o caminho a seguir, se encarregam de jogá-lo à posição de ter de assumir a defesa de Emily Rankin, e graças ao apoio de Della Street, ele vai se reinventando de detetive maltrapilho à advogado de respeito, mostrando ao longo da série que todas as qualidades e características do personagem literário já estavam lá, só que dispersas, precisando de um empurrão para Mason assumir, e abraçar, entre os vários tropeços, os rumos de sua vida. Mostrando saber a diferença entre o certo e o “legal” e assim iniciando o seu processo de redenção e posterior desapego à sua vida pregressa.
 
O tempo pesou: E.B. sente dramaticamente que a sua defesa de
 Emily está falhando por conta da sua deterioração física e mental...

A musica de Terence Blanchard (Infiltrado na Klan) dá o tom intimista da série, auxiliada pela fotografia de David Franco (Ray Donovan) e Darran Tiernan (Deuses Americanos) que situa a história no universo mais sujo e palpável da década de 30 dos EUA, quando o país estava mergulhado na miséria e desespero da Grande Depressão, e a edição de Mako Kamitsuna (Hacker) Ron Rosen (Tempestade: Planeta em Fúria) e Meg Reticker (Warrior) que num tom paciente da narrativa vai revelando num suspense maduro as nuances emocionais dos personagens numa abordagem precisa do que os define.

Mulher de negócios: Lupe Gibbs (Veronica Falcón) a amante de 
Mason quer comprar a sua propriedade para ampliar o seu
 campo de pouso...
Legado: A propriedade familiar de Mason está largada 
e decadente por causa de sua miséria financeira...

Visualmente o desenho de produção de John P. Goldsmith (The OA), aliado à direção de arte de Chris Farmer (Logan), Robert Joseph e Anthony D. Parrillo e à decoração de sets de Halina Siwolop (Pokémon: Detetive Pikachu) criam espaços que refletem tanto as posições sócio-econômicas e seus personagens, como seus estados mentais e emocionais, como o sítio mal cuidado e em desordem de Mason ou a grandiosidade brega do salão da Igreja da Irmã, McKeegan, cujos figurinos de Emma Potter (True Detective) refletem bem o ridículo dos “cidadãos de bem” que se colocam como baluartes da moralidade mas realmente só se importam com a arrecadação de dízimos dos fiéis.

Mason, por força das circunstâncias, se prepara, à toque 
de caixa para assumir a defesa, pois mais de 50 
advogados foram consultados, e não quiseram o caso...
Apesar de muitos carros nas ruas, não faltam filas 
(iniciadas no dia anterior) nas agências de empregos...

Os efeitos visuais das empresas Pixomondo, Craft Apes, Teamworks Digital e Digital Domain 3.0 supervisionados por Justin Ball (Scream Queens) recriam bem as paisagens da Los Angeles da era da depressão, onde apesar da pobreza geral, as indústrias do cinema e do petróleo despontavam, além das ótimas sequências da guerra de trincheiras das lembranças pós-traumáticas de Mason ou os delírios da Irmã McKeegan.


Direção de arte: O desenho de produção e os efeitos visuais 
recriam fielmente a Los Angeles fervilhante e 
suja dos anos da Grande Depressão...

Aqui um bom exemplo de composição de cenografia com CGI...


Terminando de forma agridoce no melhor estilo noir Perry Mason aponta nesta história de origem os rumos que seus personagens levarão mais adiante nas suas vidas até se cristalizarem nos personagens delineados por Erle Stanley Gardner em seus livros, mas não em suas encarnações televisivas e cinematográficas anteriores, transmitindo assim a mensagem de que seja a força de um distintivo policial, ou o alcance de um discurso religioso ou ainda os acalorados argumentos proferidos em um tribunal, não devemos nunca deixar de questionar a honestidade das voz que ecoa em nossa consciência, nossos ouvidos e no coração, e neste processo vemos a caminhada de personagens reais, com suas bagagens de solidão, fracassos e incertezas, mas tirando disso a força para seguir em frente e tentar fazer o que é certo enquanto sobrevivem no dia a dia, aprendendo e aceitando que nem todas as respostas serão encontradas, mas seguindo em frente, celebrando não o herói, mas a grandeza do humano imperfeito.
 
Tanto os cenários quanto os figurinos, penteados e maquiagem 
foram fruto de uma pesquisa de época caprichada...
 




Notas:
 
 
*1: “Momento Perry Mason” é um termo que existe na advocacia americana quando o advogado revela (normalmente de maneira dramática) uma informação que causa uma grande reviravolta no julgamento, virando-o a seu favor.
 
 
*2: A série se baseia em Aimee McPherson, uma das primeiras grandes pastoras evangélicas do anos 30, pioneira no uso da mídia como forma de alcançar e seduzir mais seguidores de sua Igreja Quadrangular, de pé até hoje, e cujo templo principal está localizado exatamente em Los Angeles, cujo senso de espetáculo marcou sua história, sendo replicada por líderes evangelistas através dos anos.
 
 
Aimee McPherson: A primeira grande evangelista 
midiática norte-americana. Depois dela todos seguiram seus passos na construção de grandes shows de catarse...
 

*3: Nos livros, diferente dos filmes, Della sempre foi apenas uma grande amiga, sem envolvimento romântico com Mason. Nesta série, ela é retratada como uma lésbica discreta, morando com sua companheira Hazel Prystock (Molly Ephrain de O Favorito) da mesma forma, Paul Drake, originalmente caucasiano, aqui é um afrodescendente que convive com o racismo crônico da sociedade americana, e da corporação.
 
 

"- É apenas uma questão de saber olhar para as 
coisas e perceber onde elas se conectam..."





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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Crítica: 3% – 3ª Temporada

 

 

Encontrando o próprio mérito...

 

por Alexandre César


Apesar de tropeços, série cresce e se firma

 

Ausência: É revelado que Fernando sacrificou-se 
defendendo a "Concha"...
 
 
- Eles dizem que os 97% não prestam mas eu digo que não, e vamos provar para eles o quanto estão errados!”
 
Glória (Cynthia Senek) e Michelle (Bianca Comparato) 
administram a "Concha" e, o legado de Fernando 
até as circunstâncias colocarem-nas em rumo de colisão...
 
 
Com esta frase de Michele Santana (Bianca Comparato de Somos Tão Jovens) define o seu projeto de comunidade logo no início da 3ª temporada de 3%, a produção sci-fi nacional que que tornou-se a primeira aposta da Netflix e dividiu opiniões no país, mas fez um grande sucesso fora, mostrando que a alta expectativa do público nacional pode ter atrapalhado mas, superando os desafios e, principalmente os preconceitos típicos do próprio brasileiro, que costuma ser demasiado crítico a produções que fujam ao lugar-comum do que seria uma “produção nacional”, falada em português (o idioma que boa parte do público prefere trocar pela dublagem em inglês, alegando muitos, que deixa a história “mais natural de seguir...” ).
 
Irmãos: Rafael (Rodolfo Valente, deitado) e seu maninho Artur 
(Léo Belmonte) tem bons momentos de união e conflito...
 
Joana (Vaneza Oliveira) e Natália (Amanda Magalhães) se tornam
os últimos membros da "Causa" e procuram formas de seguir 
com o movimento...
 
 
 De qualquer forma, o seriado criado por Pedro Aguilera (Onisciente) evoluiu bastante no segundo ano, aumentando o número de locações e complexidade da história, e isso permanece na terceira temporada, que é uma releitura direta da primeira, levantando os mesmos assuntos discutidos sob uma mesma filosofia e ambiente, lembrando o teor chocante da 1ª Temporada, e realçando questões marcantes e sequências inspiradas.
 
O CGI das panorâmicas do "Continente" continuam com um 
"quê" de vídeogame, agora parte da assinatura visual da série...
 
 
Michele realizou o sonho de Samira, uma das fundadoras (varrida para debaixo do tapete da narrativa oficial...) do Maralto e fez a Concha, uma alternativa ao próprio Maralto e ao Continente. Neste local, há um trabalho coletivo para fazer algo bom para todos, numa utopia que reflete bastante a construção ideológica inicial adotada pelo Maralto.  
 
A Comandante Marcela (Laila Garin) faz uma "oferta irrecusável" 
à Michelle, mas ela a rejeita...
 
Michelle, que tanto odiava o "Processo", acaba sendo 
obrigada à criar uma seleção similar à do "Maralto"...
 
 Como mostrado na temporada anterior, os fundadores queriam que o local tivesse um nível impossível de perfeição, após todos os problemas do Continente. Mas, para a narrativa se aprofundar, o sonho da Concha entra logo no começo em colapso, não por um acontecimento mirabolante, mas por uma tempestade de areia aleatória surgida do nada (o que leva a pensar como raios, ergueram uma super construção no meio do deserto mas não tinham um plano de defesa contra tempestades de areia e só a perceberem quando ela já havia chegado, apesar de terem um sistema de monitoramento 24 horas,...) fazendo com que Michele tome uma decisão extrema: é necessário selecionar quem ficará ou não no local, reduzindo o contingente populacional a... 10%. Familiar, não?
 
Descobrimos que o "Casal Fundador" Laís 
(Fernanda Vasconcellos) e Elano (Silvio Guindane) tiveram 
de abdicar de sua filha Tânia para o "processo"...
 
Dividida sobre as suas lealdades Elisa (Thais Lago) ajuda Rafael 
(que está escondido) que convence o irmão Artur a 
lhe dar mais uma chance...
 
Assim, a terceira temporada de forma muito inteligente espelha a primeira, brincando com a nossa percepção sobre “certo” e “errado”, repetindo, na Concha, o tão demonizado processo de seleção feito pelo Maralto, ainda que com outros contornos, e nisso fica indefinido para qual lado torcer, se para os eliminados do processo ou para os que ficam na Concha, sendo as provas desenvolvidas por Michele criativas e instigantes, não tendo aquele tom de eliminação de “Reality Show” que as provas do processo do Maralto tem, até porque como a própria Michele repete várias vezes: “nenhuma seleção é justa”, mas infelizmente, dessa vez, a protagonista não cresce na temporada tão bem quanto os outros personagens, perdendo a chance de de entregar grandes cenas de introspecção e reflexão, fruto dos muitos altos e baixos decorrentes de ver o sonho da Concha não sair como o esperado, obrigando-a à criar um “Processo” contra sua vontade; e nisso vendo como as pessoas que antes a amavam começam a odiá-la rapidamente, fruto do quanto ela fica solitária nestes momentos (assim como aconteceu com o Casal Fundador, apresentando o que há por trás de tais decisões) e como, muitas vezes, o autor da prova também colhe frutos amargos com seus resultados.
 

Marcela, e André (Bruno Fagundes) o irmão ardiloso de Michele, 
no final "Criaram uma 'dificuldade' para venderem uma 'facilidade'" no melhor estilo brasileiro...
 
 
Há na trama um claro salto de tempo depois que a Concha é formada, unindo personagens de diferentes núcleos, parecendo inicialmente confuso, mas todas as tramas da história vão ganhando espaço em flashbacks muito bem encaixados para contar pontos da história, como quando o conselho do Maralto institui a esterilização de sua população, pois se a sua população se reproduzisse, junto com aporte anual de finalistas do Continente, logo os recursos de produção de alimentos, habitação, etc... seriam comprometidos); ou, quando descobrimos quem fundou A Causa, o movimento de resistência que combate O Processo, ou ainda quando se detalha mais o passado da Comandante Marcela (a ótima Laila Garin de Chacrinha: O Velho Guerreiro) e sua relação com Leonardo, seu pai e membro do Conselho do Maralto (o cantor Ney Matogrosso, numa boa e seca atuação) e o peso de carregar o nome Alvares, deixando-a mais tridimensional do que uma mera  “vilã à Game of Thrones. Ainda temos ao final um movimento arriscado de André, o irmão ardiloso de Michelle (Bruno Fagundes de Sense 8) contra a autoridade de Nair (Zézé Motta de Xica da Silva) e o conselho. Todos esses possíveis desdobramentos estavam presentes desde o começo da série, ficando agora melhor definidos em termos dramáticos.
 
A direção de arte cria ambientes de aspecto orgânico e funcional 
para a "Concha", cujos corredores labirínticos, lembram 
as circunvoluções de uma concha real...
 
 
Nesta temporada temos um amadurecimento sólido de seus personagens, com destaque para Marco Alvares (Rafael Lozano de Marighella); Rafael Moreira (Rodolfo Valente de 13 Andares numa ótima performance) que cria uma boa sinergia com seu irmão caçula Artur (Léo Belmonte de Patrulha Salvadora); Glória (Cynthia Senek de Malhação) que deixa de ser a “menina meiguinha da igreja” e assume um protagonismo ainda que questionável; Xavier (o iniciante Fernando Rubro)um quase alívio cômico e, temos Joana Coelho (a excelente Vaneza Oliveira de Mãe não chora) que continua sendo a personagem forte (e uma das mais verdadeiras de toda a história), que desconfia de todo e qualquer “salvador”, incluindo Michele, mas apesar de incrédula, ela se permite conhecer a Concha e reconhece o seu potencial, ficando receosa com o rumo que as provas do “novo Processo” levará a comunidade que era para ser “uma alternativa ao estabelecido pelo Maralto”. Joana também se deixa, finalmente, levar pelos sentimentos e aceita o amor, numa mudança lenta e gradualmente construída ao longo da temporada.
 
André e Marcela instigam a rebelião na "Concha" para tomarem 
conta de tudo dentro da "legalidade"...
 
 
A fotografia impecável de Rafael Martinelli (Tempero Secreto) e Eduardo Piagge (Onisciente) com sua palheta de cores quentes que a edição de Vinicius Prado Martins (Fortunato) Olivia Brenga (Bixa Travesty) Ricardo Gonçalves (O Menino que Matou Meus Pais / A Menina que Matou os Pais) Christian Chinen (Música para Morrer de Amor) complementa num ritmo encadeando lirismo ao conhecermos os filhos de alguns personagens, percebendo o olhar infantil e o tom mais cinético quando a população se rebela contra Michelle, lembrando um mix de timbalada, culto evangélico e ato público populista, permeada pela música do estúdio Submarino Fantástico (Em Nome dos Pais) e André Mehmari (Gigantes do Brasil) que trabalha bem os momentos dramáticos e sublinha um certo lirismo e desilusão, como quando em sua seleção inclui na sequência da tomada da Concha a interpretação inspirada de Johnny Hooker para Bom Conselho de Chico Buarque, ou Mulher do Fim do Mundo interpretada por Elza Soares refletindo a reflexão de Joana sobre tudo à sua volta.
 
Leonardo (Ny Matogrosso) o pai de Marcela e o mais célebre dos 
"Alvares", a família tradicional que sempre passou no "Processo"...
 
A "Concha" abriga em seu interior um equipamento que poderá
 permitir à "Causa" dar o troco no "Maralto", que ferrou com o 
"Continente" há um século, criando a disparidade social da série...

 
A direção de arte de Fernando Zucolotto (Onisciente) e a decoração de sets de Mario Surcan (Solo) define bem o espírito da Concha, que contrasta o uso de materiais naturais em com a tecnologia sutil e avançada do Maralto, num minimalismo elegante e funcional, além de soluções criativas ao mostrar o aspecto miserável do Continente como um quebra-cabeças faltando inúmeras peças como o trecho em que Joana e Natália (Amanda Magalhães de Psi) fogem dos soldados passando de andaimes e aramados, para trechos de habitações danificadas e até seções de aviões de passageiros desativados, num grande ferro-velho, coisa que se reflete nos figurinos de Graciela Martins (Trabalhar Cansa) que flerta com o estilo “Mad Max” das roupas de guerra de Glória e de Marco quando estes vão à luta.
 
Glória (Cynthia Senek) e Marco (Rafael Lozano): O 
novo "Casal Fundador"???
 

Ao refletir temas da primeira temporada, 3% entrega em sua terceira temporada a mensagem de que a história é cíclica e, apesar das diferenças, ela está condenada à repetir-se, como demonstra a mudança rápida de opinião dos moradores da Concha mostrando o quanto a humanidade sempre está vulnerável ao discurso de “messias”e de “grandes salvadores”, mostrando com profundidade em seu texto que 3% ainda pode ser considerada uma grande produção brasileira, e não apenas a “primeira produção nacional da Netflix, tendo a crítica como elemento secundário e imaginário nesta trama que discute meritocracia e desigualdade social sem o semblante que narrativas do gênero que sempre lembram o espectador de que ele está assistindo a um projeto que quer alfinetar alguém ou alguma coisa, e assim pavimenta o seu caminho rumo àum futuro conflito que deverá encerrar as histórias de seus personagens e (se continuar com a coragem mostrada até aqui...) podemos esperar uma 4ª Temporada com tudo para terminar com uma mensagem realmente importante ao seu público.


Como diria a música: " -Vamos quebrar tudo...! Vamos, vamos..."

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O futuro, à audiência pertence...


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