Tolkien (2019) é dirigido pelo diretor finlandês Dome Karukosk, cuja biografia conta com uma boa bagagem de curtas, sendo esse seu 1º grande trabalho (penso que a sua origem e o grande apreço que J.R.R. Tolkien tinha ao finlandês, o motivo inicial para a sua escalação para a empreitada) que apoiado no bom roteiro de David Gleeson e Stephen Beresford, que de forma nada linear e didática (fato que seria monótono e até “normal” em uma biografia...) acompanha a sua trajetória de vida de jovem sonhador, passando por sua própria “jornada do herói” até a consagração no amor, e no meio acadêmico e literário como um dos grandes pilares da literatura fantástica.
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As paisagens campestres que Tolkien habitava: Condado? |
A direção de fotografia está a cargo de Lasse Frank Johanessen, provavelmente por ter trabalhado junto ao diretor em alguns curtas, Lasse foi diretor de um clipe para a cantora islandesa Björg Black Lake. Uma boa escolha, pois Lasse consegue uma agradável paleta de cores durante todo o filme, sendo sua bela fotografia um bom fator de imersão, como nas cenas de guerra usando muito vermelho nos delírios de um atormentado Tolkien (Nicholas Hoult, eficiente como sempre), o que em uma tela menor pode ficar escuro demais, dificultando a compreensão visual do quadro.
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A guerra de trincheiras: Com as "bençãos" de Sauron... |
O filme se concentra em 3 momentos da vida de Tolkien nos fazendo pensar que o tempo todo ele já tinha tudo na cabeça do que surgiria incrivelmente mais a frente. Vemos sua infância, juventude e o início da vida adulta, sendo a juventude que mais ocupa a narrativa, conduzindo especificamente a realização das obras de Tolkien, o que pode fazer parecer forçado, mas felizmente não é assim que acontece, apesar de ficar essa impressão. Esses 3 momentos também podem ser divididos em 3: A guerra, os amigos e seu namoro com Edith Brat . Um quase 4º arco que se faz começar mas é interrompido, seria o convívio de Tolkien com o Professor Joseph Wrigth (o ótimo Derek Jacobi ), falha que poderiam ter melhor resolvido caso o roteiro e a edição lhe desse maior espaço, delineando alguém fundamental na vida do autor, porém sendo o seu curto tempo de cena, significativo.
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Uma 1ª Guerra enfrentado Smaug. |
Os primeiros fãs de Tolkien eram extremamente radicais na proteção a qualquer adaptação que fosse das obras do autor, o que impediu diversas tentativas e as poucas que escaparam a esse exagero não ganharam muita divulgação. De verdade o que de fato valia era a obra em si e nenhuma adaptação. Mantidas como uma obra sacra, o próprio Tolkien assim a preservava. Vemos nessa cine biografia vários momentos que fazem mais alusão à trilogia de Peter Jackson do que a algum possível relato do autor. Sabemos que a experiência durante a Grande Guerra foi impactante, o filme coloca esse impacto em imagens fantásticas: A Terra de Ninguém é o próprio Reino de Mordor ou algum desafortunado Reino que Sauron devastou, em referência aos 3 filmes, certamente uma busca aos fãs recentes que ainda possam ser estimulados a buscar mais informações sobre a obra e ao próprio Tolkien, uma biografia autorizada cedida por Tolkien em 1967 ao biografo Carpenter Humphrey está sendo relançada pela Casa dos Livros Editora. As agruras enfrentadas nas trincheiras chegam a uma quase exatidão em referência a cenas dos filmes de Peter Jackson. Ali encontramos um febril e obstinado Tolkien junto a um fidelíssimo soldado de nome Sam (coincidência não?). Tomaram de grande liberdade ao lidar com o tema da Guerra, numa tentativa de entrar na mente do autor. Tolkien sobreviveu a uma das mais sangrentas batalhas vividas pelo exército inglês, a Batalha do Somme na França. Em igual peso para os ingleses seriam as 3 Batalhas de Ypres (19/10 - 30/ 11/1914; 22 -25/05/ 1915; 31/07 - 06/11/ 1917).
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Tolkien criou uma lenda, e deveria saber que lendas não possuem proprietário. |
Em flashbacks extensos vamos descortinando detalhes pontuais sobre sua vida. Ele e o irmão foram grandemente afortunados por terem Mabel Tolkien (Laura Donnelly) como sua mãe . Recém viúva, ela recebe ajuda do padre espanhol Francis Xavier Morgan (Colm Meaney, o Chefe O’Brien de Star Trek: A Nova Geração e Deep Space Nine) e decidem seguir para a Inglaterra. O ator, que encara bem o papel de um autêntico jesuíta sempre muito preocupado com a educação, é outra boa fortuna com que Tolkien foi agraciado. É sua mãe quem conduz Tolkien e o irmão a esse mundo de contos de fadas, quase literalmente pois é capaz de narrar uma história de dragões com direito a uso de uma Lanterna Mágica, em lindas imagens em uma pequena e significativa sequência. Tolkien e seu irmão serão beneficiados por todo esse cuidado que recebem da mãe e do padre Francis. A percepção de que Tolkien tem um talento nato para lidar com o estudo e com idiomas irá lhe colocar nos melhores locais de ensino de uma ainda vitoriana Inglaterra, apesar de sua origem humildade e de ter nascido na atual África do Sul que no início do séc. XX seu domínio estava dividida entre ingleses e holandeses. Tolkien nasceu na República do Estado Livre de Orange um Estado de Origem Holandesa, porém sua família era inglesa, Tolkien irá receber um ótimo ensino.
“Através da Arte. Mudaremos o Mundo através da Arte.”
J.R.R.Tolkien
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Tolkien (Nicholas Hoult) o poeta Geoffrey B. Smith (Anthony Boyle), o pintor Rob Gilson
(Patrick Gibson) e o músico Christopher Wiseman (Tom Glynn-Carney).
Somos Amigos ♪♫ Amigos do peito ♪♫ Amigos de uma vez ♪♫ Amigos de vocês ♪♫ |
Tolkien (cuja pronúncia, é "Tól.. Quin") e seus 3 amigos realmente fundaram o T.C.B.S. que em português traduz-se para Clube do Chá e Sociedade Barroviana . Barrow’s era o nome da “lanchonete”onde os 4 se reuniam desde a adolescência para escapar de seus destinos já traçados por suas famílias, destino inglório e comum na opinião de seus 3 amigos. Aspiravam sonhos mais nobres porém menos rentáveis na opinião de seus ausentes e abastados pais, sutilmente lembrando A Sociedade dos Poetas Mortos (1989) de Peter Weir. Hellheimer era um grito de desafio e auto-afirmação diante de tudo e todos que os fizessem sentirem-se menores. E nunca pronunciado de modo correto por Rob Gilson (Albie Marber / Patrick Gibson), mesmo sendo esse o 1º com entusiasmo a incorporar o brado retumbante. A amizade é sincera com direito a essa turminha aprontar mil e uma confusões recheada com diálogos cativantes em citações a se perder à peças, contos, quadros e música de um pouco de tudo que rolava na Inglaterra início do séc. XX.
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Edith Brat (Lilly Collins): Sempre sob as árvores. |
Tolkien e o irmão Hilary conhecem Edith Brat (Mimi Keene, adolescente e Lilly Collins já uma jovem mulher). Os irmãos são adotados na casa da Sra. Faulkner (Pam Ferris) e dela recebem tutelagem a pedido do padre Morgan. Edit Brat já estava ali residindo no solar dos Faulkner quase sempre a entreter sua tutora ao piano. O namoro dos dois não vem de imediato apesar da paixão a 1ª vista de Tolkien (garotos!). Não sabemos se de fato Edith será a 1ª a questionar J.R.R. Tolkien sobre o significado das palavras e não apenas a sonoridade delas e criação de idiomas como era muito do gosto de Tolkien desde a infância, Tolkien gosta de criar palavras como a Emília de Monteiro Lobato e brincar com a sonoridade delas, mas uma palavra precisa ter uma história por trás para de fato ser algo de valor segundo Edith. Segundo o próprio Tolkien, ela lhe serviu, sim, de inspiração para a deusa elfa Luthien em sua obra Silmarillion ao vê-la dançar sob um bosque enquanto namoravam.
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| Tolkien e Edith: Um amor de mente, corpo e espiírito, na paz e na guerra... |
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A forma como é mostrada o namoro dos dois é muito bonita, mostrando uma paixão dos sentidos e do intelecto, revelando a admiração mútua por qualidades particulares e respostas a questionamentos, até quando brigam é um relacionamento interessante pois quase não parece uma briga. No filme é dela a paixão por Wagner e O Anel dos Nibelungos (inspiração para o Um Anel), sendo que ela também sentia-se presa a um destino (como a maioria das mulheres da época) e ansiava sair dele tal qual os amigos da T.C.B.S. É incrível ver como o protagonista extrai de sua tristeza e de suas dificuldades o que há de melhor em si, superando as adversidades enquanto dá vida ao que sempre esteve ali em sua mente.
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"- Um anel para a todos comandar..." |
Nas idas e vindas da memória entre bombas e Nazguls ameaçadores, junto a Edith, ele constrói uma família e caminha em direção à construção de uma carreira, ganhando o título de Professor em Oxford. Vamos aí descortinando o que seria seu trampolim para a vida adulta e acadêmica: O Professor de linguística Joseph Wrigth surge de modo muito prosaico na vida de J.R.R. Tolkien e em pouco tempo confirma e lhe trás um maior significado para tudo que estava há muito tempo sendo apenas rascunhado, apesar do seu pouco tempo em cena Wrigth irá de fato coloca-lo em um rumo, é o momento “Hellheimer” de Tolkien, vale a pena ver um senhor tão aguçado e espirituoso a seu modo.
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A amizade entre Tolkien e o Prof. Joseph Wright (Derek Jacobi)
é fundamental para a sua vida acadêmica. |
Wrigth era muito admirado pela escritora Virgínia Wollf e segundo depoimento do próprio Tolkien: “- Eu agora em 1963 sei que era perfeitamente a verdade, a chave para o comportamento dos dons”. Após um bloqueio criativo enorme para a escrita, Tolkien encontra sua inspiração nos laços de sua eterna irmandade, o T.C.B.S., o que inspira à criação do famoso O Hobbit, sendo emocionante ver sua criação sendo compartilhada com seus filhos com tanto entusiasmo e com uma pitada de nostalgia.
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"-Poderia me preparar um texto com 5000 palavras em Gótico Medieval para hoje a noite?" |
Tolkien aposta em tom solene para explorar a gênese de suas maiores obras, e enfatizar a sua genialidade, embora falhando, em partes, para entregar isso. Apesar de tudo, é um filme que emociona, alegra os fãs por suas referências, arrancando lágrimas do telespectador facilmente em seu clímax. O longa vale a pena por seu tom despretensioso encantando até quem não é um admirador das obras famosas.
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“Num buraco no chão vivia um Hobbit”... Hum, seria um bom começo para um livro?!? |